Zerar mortes no trânsito: um pacto para a cidade de São Paulo

Para marcar o Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro), a Frente da Mobilidade Ativa, liderada por Ciclocidade e Cidadeapé, colocou faixas informativas nas pontes Estaiada e da Casa Verde.

 

O processo eleitoral mostrou uma face perversa da sociedade paulistana: parte de nós cultiva uma enorme indiferença em relação à vida. O discurso de candidatos e candidatas em favor do aumento de velocidades, especialmente nas marginais Pinheiros e Tietê, é aquele em que 4 minutos a mais no deslocamento valem mais do que as 300 vidas salvas. Trata-se, não à toa, de um pensamento apressado, mas com certa adesão social.

Na verdade, não aceitar nenhuma morte no trânsito deveria ser um objetivo central a ser adotado não apenas pela Prefeitura de São Paulo, mas por toda a sociedade.

À medida em que as pessoas refletem, conseguem se dar conta do enorme ganho que é uma única vida salva no violento trânsito paulistano. Pesquisa recente da Rede Nossa São Paulo/Ibope apontou que há mais pessoas favoráveis às redução das velocidades máximas. Elas se dão conta que, nos últimos 10 anos, foram cerca de 10 mil vidas perdidas e tantas outras pessoas com sequelas graves. Que não faz sentido se indignar com o aumento da fiscalização, que busca combater a indústria da morte e seus custos altíssimos para a cidade de São Paulo.

Uma redução de 5% na velocidade máxima dos automóveis pode resultar em 30% menos atropelamentos fatais e colisões. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a velocidade máxima de 50 quilômetros por hora (km/h) em vias urbanas. Diminuir velocidades máximas, implantando zonas de até 30km/h, por exemplo, tem sido prática de diversas cidades no mundo com resultados excelentes, inclusive em termos de fluidez para quem está dentro do carro. Algumas medidas começaram a ser adotadas nos últimos anos em São Paulo e os indicadores têm mostrado que elas surtem efeito: já são 6% de queda no congestionamento e mais de 20% de redução de mortes no trânsito.

Mais do que consolidar uma política por velocidades mais compatíveis com a presença de pedestres e ciclistas, devemos assumir o compromisso de zerar as mortes no trânsito paulistano. A adoção da agenda Vision Zero, ou Zero Mortes, vem ocorrendo ao redor do mundo a partir da mobilização da população e da sensibilização de gestores públicos. Trata-se de devolver os espaços para as pessoas, para que possamos ver crianças brincarem ou irem à escola em segurança; para ver idosos ocuparem as cidades; para proporcionar saúde, convivência e segurança nos espaços públicos.

Isto significa sair do cotidiano violento em que estamos imersos e que se tornou tão comum e naturalizado. Queremos pensar a cidade de forma inteligente e afetiva, tirar espaços de automóveis e priorizar outros modos de transporte. Qualificar calçadas e travessias, promover a arborização, redesenhar vias, diminuir faixas de rolamento, retomar áreas tomadas por viadutos. Tudo isso já foi pensado pela engenharia de trânsito e por especialistas em desenho urbano. Já foi testado por diversas cidades ao redor do mundo, em realidades distintas.

É hora de assumirmos o compromisso político de zero mortes no trânsito, de fazer um pacto pela vida e implementar políticas concretas de desestímulo ao uso do carro. A próxima gestão municipal deve ter a coragem de realizar estas propostas. Que os discursos eleitoreiros sejam rejeitados nas ruas e nas urnas.