Por que é um erro associar redução de mortes no trânsito à crise econômica

Ao longo da disputa eleitoral pela Prefeitura de São Paulo, alguns candidatos/as refutam a ideia de que a redução de atropelamentos e colisões de trânsito na capital paulista esteja relacionada à redução de limites de velocidade e outras intervenções realizadas pelo poder público. Um dos principais argumentos usados é o de que a queda se deve à crise econômica, que teria produzido uma redução de automóveis nas ruas. A tese, no entanto, se mostra frágil.

A queda no número de mortes e ferimentos no município foi mais expressiva que em outras cidades

Faltam dados estatísticos mais recentes no principal meio de consulta, o DATASUS. No entanto, dados do Detran/SP mostram que a queda no número de mortes no trânsito na cidade de São Paulo foi três vezes maior do que no Estado entre 2014 e 2015. A redução no número de mortes no Estado foi de 7%, enquanto na capital a queda ultrapassou os 20%.

Em Belo Horizonte, houve redução de apenas 3,5% no mesmo período, segundo o “Diagnóstico de Acidentes de Trânsito 2014-2015”. Já Porto Alegre teve queda no número de mortes, mas apresentou um número maior de ocorrências (alta de 11,68% segundo a Empresa Pública de Transporte e Circulação). A redução no município de São Paulo também é superior ao total de indenizações do DPVAT no país, que foi de 15%.

 

Variações de indicadores econômicos não coincidem com variações de atropelamentos e colisões

Se houvesse relações seguras entre variações econômicas e ocorrências  de trânsito, deveria se identificar essa correlação em séries históricas. No entanto, isso não se verifica, conforme mostram levantamentos comparativos feitos pelo Bike Zona Oeste a partir de dados públicos:

mortesvscrises1(fonte: Bike Zona Oeste / Portal Via Trolebus)

 

Levantamento semelhante foi realizado pelo Blog Novas Cartas Persas. Ao dado comparativo de PIB, o blog acrescentou análises de “desemprego” e “população ocupada” para a Região Metropolitana de São Paulo. Mais uma vez não há correlação entre os indicadores.

mortesvscrises2mortesvscrises3mortesvscrises4

Veja a íntegra dos textos:

Redução de mortes no trânsito está relacionada à economia? – Via Trolebus

O mito da crise como explicação para a redução nas mortes no trânsito – Blog Novas Cartas Persas

Ou seja…

Correlacionar a redução de mortes e ferimentos no trânsito com a crise econômica se revela como mais uma falácia eleitoreira, descompromissada com uma das políticas públicas mais importantes para mobilidade urbana e a segurança viária que é o acalmamento de tráfego.

A literatura nacional e internacional já consolidou que para termos um trânsito mais humanizado e em acordo com a Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito (ONU), a adoção de limites de velocidade mais razoáveis nas vias urbanas é uma destas medidas essenciais.

Sabe-se que a cada dez leitos nas UTIs, seis são ocupados por vítimas de atropelamentos e colisões. Sabe-se, ainda, que em um atropelamento ocorrido a 64 km/h, a vítima tem 85% de chances de morrer; enquanto se o mesmo atropelamento ocorrer a 48 km/h, a relação se inverte e a vítima terá 55% de chances de sobreviver.

Relatórios da CET-SP, de 2005 a 2009, apontaram que 44% das mortes no trânsito, neste período, estão associadas às altas velocidades. Ou seja, qualquer política pública séria de redução de mortes e ferimentos no trânsito deverá passar pela adoção de novos limites de velocidade. Os resultados são imediatos e centenas de vidas são salvas por esta que é uma medida simples, eficiente e condizente com leis federais e com os acordos internacionais firmados por São Paulo.